Máscaras...

Meu Amigo, não sou o que pareço. O que pareço é apenas uma vestimenta cuidadosamente tecida, que me protege de tuas perguntas e te protege da minha negligência. Não queria que acreditasses no que digo nem confiasses no que faço – pois minhas palavras são teus próprios pensamentos em articulação e meus feitos, tuas próprias esperanças em ação.
Quando é dia contigo, meu Amigo, é noite comigo. Contudo, mesmo assim falo do meio-dia que dança sobre os montes e da sombra de púrpura que se insinua através do vale: porque não podes ouvir as canções de minhas trevas nem ver minhas asas batendo contra as estrelas – e eu prefiro que não ouças nem vejas.
Meu Amigo, tu és bom e cauteloso e sábio. Tu és perfeito – e eu também, falo contigo sábia e cautelosamente. E, entretanto, sou louco. Porém mascaro minha loucura. Prefiro ser louco sozinho: Meu Amigo, tu não és meu Amigo, mas como te farei compreender? Meu caminho não é o teu caminho. Contudo juntos marchamos, de mãos dadas.



"Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos."
Clarisse Linspector.
Chorei...
Existiram sempre em mim pelo menos duas mulheres, uma desesperada e desnorteada, que se sentia a naufragar, e outra que queria apenas trazer beleza, graciosidade e vida às pessoas, e que estava pronta a entrar em cena como no teatro, pronta a ocultar as suas verdadeiras emoções, porque elas eram fraqueza, desamparo, desespero, e a apresentar ao mundo apenas um sorriso… chorei porque não era mais uma criança com a fé cega de criança. Chorei porque não podia mais acreditar e adoro acreditar. Chorei porque daqui em diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada com a ausência dela.


Não deveríamos oferecer à coletividade um “eu” incompleto, deprimido, caótico, confuso, doente ou ferido” . (Anais Nïn)


Perdas
Fevereiro 2009,

Durante os primeiros poucos dias naquele lugar estranho, não me teria sentido pior se tivesse perdido braços e pernas em lugar de casa e família. Não tinha dúvida de que a vida jamais seria a mesma. Só conseguia pensar em minha própria confusão e infelicidade. {…} Eu estava sem pai, sem mãe ─ até sem a roupa que sempre usara. Mas de alguma forma, a coisa que mais me espantara, depois de uma semana ou duas, foi que na verdade eu tinha sobrevivido. Lembro-me de um momento em que secava tigelas de arroz na cozinha, e de repente me senti tão desorientada que tive de interromper o que fazia e fitar minhas mãos por longo tempo; pois quase não podia acreditar que aquela pessoa secando tigelas era realmente eu.”

Arthur Golden in Memórias de uma Gueixa .

Abri suas cartas, seus recados, seus bilhetes, seus suspiros, sua alma."
"Um dia tu vais compreender que não existe nehuma pessoa totalmente má, nehuma pessoa completamente boa. Tu vais ver que todos nós somos apenas humanos. E sofrerás muito quando resolveres dizer só aquilo que pensas e fazer só aquilo que gostas. Aí sim, todos te virarão as costas e te acharão mau por não quereres entrar na ciranda deles, compreendes? "
A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar, sabe quando vai dar?

Que coisas são essas que me dizes sem dizer, escondidas atrás do que realmente quer dizer?
Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias. Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti. Torna-se desesperada, urgente. Eu já não sei o que faço. Não sinto nenhuma alegria além de ti.
Como pude cair assim nesse fundo poço? Quando foi que me desequilibrei? Não quero me afogar: Quero beber tua água. Não te negues, minha sede é clara.
( Caio Fernando Abreu- O Essencial da Década de 1980)
Fevereiro 2009...

Acontecera um milagre. Um milagre à toa, mas básico para quem, como eu, não tinha pais ricos, dinheiro aplicado, imóveis nem herança e apenas tentava viver sozinho numa cidade como aquela que trepidava lá fora, além da janela ainda fechada do apartamento. Nada muito sensacional,(...) embora a miopia ficasse cada vez mais aguda e os joelhos tremessem com freqüência, não sabia se fome crônica ou pura tristeza, meus olhos e pernas ainda funcionavam razoavelmente. Outros órgãos, verdade, bem menos.Toquei o pescoço. E o cérebro, por exemplo.
Já chega, disse para mim mesmo, parado nu no meio da penumbra gosmenta do meio-dia. Pense nesse milagre, homem. Singelo, quase insignificante na sua simplicidade, o pequeno milagre capaz de trazer alguma paz àquela série de solavancos sem rumo nem ritmo que eu, com certa complacência e nenhuma originalidade, estava habituado a chamar de minha vida, tinha um nome. Chamava-se - não queria lembrar, mas lembrei -.
Mas eu tinha que ficar contente. E quando você quer, você fica. Comecei a ficar. Afinal, aquele podia ser o primeiro passo para emergir do pântano de depressão e autopiedade onde refocilava há tempos e não admitia. Perdera o vício paranóico de imaginar estar sendo sempre filmado ou avaliado por um deus de olhos multifacetados.

Era engraçado. E bastante esquizofrênico. Mas de repente o real tinha-se tornado bem menos retórico.
Caio Fernando
“Loucura, eu penso, é sempre um extremo de lucidez. Um limite insuportável.”

Fevereiro de 2009,

“Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou “o que foi?” – perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor – essa pessoa – continua vivo(a), há então uma morte anormal.”

O sol ainda não viera. E sem lua nem sol ela estava sozinha no banheiro. Esta revelação a fez baquear um pouco. Meio tonta com a solidão e a brancura do momento. Trôpega, buscou apoio na extremidade da pia, que respondeu fria e asséptica ao pedido de ajuda. Olhou para a porta, e se então tivesse saído teria escapado. Mas ficou. Ferindo a si mesma e por si mesma sendo ferida. Com o pretexto de lavar as mãos, molhou os pulsos, sem admitir a tontura – que às vezes tinha esses pudores íntimos...

Não, meu bem, não adianta bancar o distante

lá vem o amor nos dilacerar de novo…”

Caio Fernando

"Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis."

"Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressiva e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso.
Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros...não sei se em algum momento cheguei a ver você completamente como outra pessoa, ou, o tempo todo, como uma possibilidade de resolver minha carência.
Fiquei tão só, aos poucos. Fui afastando essas gentes assim menores, e não ficaram muitas outras.

"Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar de remar também."
Caio Fernando
...

Se eu lhe disser que estou com medo de ser feliz para sempre, o que você diria?Se ser feliz pra sempre é aceitar com resignação católica o pão nosso de cada dia e sentir-se imune as tentações, então é deste paraíso que quero fugir. Não estou disposta a inventar dilemas que não existem, mas quero reencontrar aqueles que existem e que foram abafados por esta minha vida. Não intenciono nem mesmo trazê-los à tona, quero apenas ir ter com eles onde eles se escondem, descobri-los em seu próprio bunker.
Por um lado não me sinto como as outras pessoas e, por outro, sou exatamente como elas.(...) não quero meus conflitos expostos, quero mantê-los lá no fundo, eles não precisam emergir, sou eu que preciso mergulhar e, se preciso for, ficar um pouco lá embaixo, me familiarizando com a parte de mim que não respira, não ventila.
Fui uma criança incompleta, faltou-me uma dona...eu que tinha tantos motivos pra sofrer...De tanto esforço para não capitular diante da tragédia, de tanta vontade que eu tinha de ser adulta, de tantas ausências ao meu redor, forcei uma precocidade e resolvi me salvar sozinha. Acreditei que realmente poderia, e aquilo tornou-se o meu porão, o meu sotão, o meu segredo.
Abdquei do papel de coitadinha. Foi como se todo o lote de sofrimento que eu tinha para gastar durante uma vida inteira fosse entregue de uma só vez...Fui subtraída e fui grata ao mesmo tempo.

Divã - Martha medeiros
Inspiração...

Sou eu que começo?Não sei bem o que dizer sobre mim. Sou tantas que mal consigo me distinguir. Sou estrategista, batalhadora, porém traída pela comoção. Num piscar de olhos fico terna, delicada. Acho que sou promíscua. São muitas mulheres em uma só, e alguns homens também. Prepara-se para uma terapia de grupo.
Porque estou aqui é uma pergunta que me faço desde a hora que acordo até a hora de ir dormir. Não saberia dizer a razão concreta.
Você me pergunta qual a minha dor e isso me paralisa. Quero saber, entre todas aquelas quem eu sou, quem é a chefe, quem manda dentro de mim. Me confundo com tanta autoridade, já não sei bem a quem obedecer. Acho que a própria cronologia é um entrave pra mim, às vezes tenho a impressão de estar vivendo de trás pra frente. Normalmente as pesssoas são infantis e depois amadurecem, são questionadoras e depois encontram respostas que lhes servem. Comigo não tem sido assim. Eu vou e volto, vou pra esquerda e pra direita, avanço e retrocedo. Não que isso me incomode, sinto até um certo prazer em me perder neste labirinto. O que dói, talvez, seja essa mania de querer competir com o tempo e vencê-lo. Não sei explicar direito.
Tenho uma vida boa, melhor do que muitos costumam alcançar um dia. mas sinto que estou por atravessar, por invadir um terreno desconhecido...se você me ajudar a abrir a cancela e a me dirigir para este sei-lá-o-quê que me chama.

Divã - Martha Medeiros